quinta-feira, 15 de setembro de 2011

É engraçado como uma brincadeira inusitada do cotidiano pode despertar tanto a imaginação e as emoções.
Digo isso porque acabo de passar uma situação interessante.

Jantávamos eu e meus pais no apartamento da minha avó. Tinha preparado uma sopa. Papo vai, papo vem, começaram a discutir um assunto de dívidas de falecidos, assuntos de família. Eu, não entendendo nada, tirava sarro com todos os envolvidos, jogando argumentos morais ao acaso, sem saber do que se tratava, para descontrair. De repente, a coisa esquentou e quem tinha opiniões iguais deixou de tê-las. A brincadeira tornou-se emotiva. Mas não entrarei em detalhes, não é este o causo do meu conto. Mas me lembrei dele e, na minha mente, ilustra bem também a minha tese hahaha.

Terminada a janta, voltamos caminhando para casa. Meu pai foi colocar o carro pra dentro da garagem enquanto eu e a minha mãe entrávamos pelo portão da frente. Assim que entramos, meu pai, que estava sem chave, pediu que abríssemos o portão que dá da garagem para a casa. Cara, meu olho brilhou: era agora a hora. Olhei para ele e falei "Nãããããão. Você vai ficar bem aí onde está!" e desatei a rir como louca. Meu pai estava preso na garagem! E eu tinha a chave! Ia deixar ele lá, ver quanto tempo ele aguentava, até quando ia ficar bravo, o que faria nas incontáveis horas sem um banco pra sentar! Minha mãe nada podia fazer, eu tinha a chave. E eu ria como louca. Chegava pra ele e dizia "Vai ter que me subornar. Quero aumento de mesada! Quero uma partida de baralho por dia!" E ria! "Ai, como é bom ter poder!". O problema era minha mãe... ela não ia deixar ele ficar lá por muito tempo. Com certeza ela iria ajudá-lo... não poderia confiar nela. Fiquei perto do meu pai então "Como você se sente na prisão? Atrás dessas grades? Não pode fazer nada! Nada!" Ele ria também, é claro. Mas eu ria mais. Era como se eu nunca tivesse tido tanto poder nas mãos! Mas minha mãe vinha se aproximando... "Não, mãe! Não deixa ele sair! Não me traia!" ela estendeu a mão pra ele... tive que abrir o portão. Queria eu ser a única que pudesse o liberar. Só eu poderia ter o poder de liberá-lo! Era prisioneiro meu! Antes saísse com a minha concessão do que pela mão de outros...
O soltei. Assim que entrou em casa, ele e minha mãe se puseram a rir. Imagina só! Dizia, ela. "Imagina só, eu não entreguei nada pra ele! Só estendi a mão! Eu não tinha chave nenhuma!". Deixei me levar pela imaginação. Na minha fantasia, minha mãe era a traidora, minha mãe tinha a chave para soltar a minha presa. Nunca teve.

Entramos eu e meu pai na cozinha, onde a internet pega melhor e ele costuma sentar-se no laptop para trabalhar. Foi aí que eu parei para refletir no que eu sentira. E contava-lhe, o poder corrompe, foi a minha conclusão. Eu nunca me sentira tão poderosa! Era uma brincadeira, é claro, e dentro dela, eu poderia fazer quaisquer exigências possíveis. Pai, lhe falava, eu imaginei que pudesse pedir o que tivesse vontade! Dinheiro, direito de fazer o que eu quisesse, de deixar de estudar, qualquer coisa absurda que eu pudesse pensar no momento. Me comparei à CIA ou ao FBI, quando sucedem em capturar um procurado qualquer. Será que foi assim que o Bush se sentiu quando capturou o Saddam? Pai, eu capturei o Saddam! Capturei o Osama! Quero ser agente secreta, quero ter esse sentimento de recompensa de novo! Pai, será que é assim que se sentem os presidentes? Os líderes de partidos, donos de terras, de empresas, donos do mundo? É incrível ter poder! São todos corruptos! Olha só o que eu fiz! Não pensei duas vezes em te prender e te chantagear! E ao mesmo tempo comecei a sentir ódio pelo poder.

Mas no momento seguinte, outro pensamento me bateu. Sabe o que eu também senti? Me senti uma revolucionária. Eu era uma cidadã da Líbia! E você, pai, era o Gaddafi! Eu tomei o poder! Derrotei quem sempre me oprimiu, quem sempre impôs sua vontade sobre a minha. Pais são iguais a ditadores, pensava. Iguaizinhos. Agora, quem tomava as decisões era eu. Eu mandava nessa porra. Deve ser tão bom lutar pelo que você pensa, pelo que você acha certo... e suceder! Poder é liberdade, foi minha conclusão.






Liberdade corrompe?

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