sábado, 14 de maio de 2011

Churrasco de gente (nem tão) Diferenciada

Como todos sabem (ou não) hoje foi o dia do chamado "Churrasco de Gente Diferenciada", um protesto contra a recusa por parte dos moradores de Higienópolis à construção de um metrô na Rua Angélica. Um protesto contra o preconceito classista dos burgueses da região. A começar pelo próprio nome do bairro.
Se desconstruirmos o nome, Higienópolis é formado pelas palavras "higiene" e "polis". Sabe aquele cosmopolitismo que a gente estudou em História? Aquela postura imitativa por parte das elites brasileiras dos padrões finos e modernos da Europa? Aquele desejo de Higienizar as cidades brasileiras, aquela construção de largas avenidas para expulsar os moradores pobres? É, o bairro de Higienópolis é alta classe, moderno, limpo... higienizado. E é independente das regiões mais sujas ao seu redor, porque é uma pólis. Pólis, aquela cidade-estado grega do período Arcaico, autônoma, sem contato com as outras cidades da região.
É claro que não existem apenas pessoas burguesas ou contrárias à construção do metrô em Higienópolis, mas foram essas pessoas que se manifestaram e é uma pena que generalizações sejam feitas, pois fazem-nos esquecer dos muitos moradores que pensam de outra forma. Mas para não ser ser relevado, é preciso se manifestar.

Das 56.300 pessoas que confirmaram presença, não chegaram a ir mil. Fui sozinha. Diferenciado é o comprometimento político que os brasileiros têm, de tão baixo. Apesar de chamar vários amigos e até receber uma resposta positiva de alguns, nenhum se deu ao trabalho de se manifestar. Ou então, eles na verdade não se sentem tão diferenciadas assim, a ponto de sair às ruas para clamar os seus direitos.
Porque no evento, de verdade, a grande maioria eram jovens de classe média. Parece que é a tal classe média que se sente mais ofendida com esse discurso mais elitista... digo por experiência familiar que da mesma forma como os ricos são classistas, os pobres também são.
Ou talvez só não havia muitos pobres porque pra que que eles vão precisar de metrô em Higienópolis? Tem muito lugar muito mais necessitado de transporte público além dos ônibus, que nem andando na sua própria faixa, conseguem evitar o trânsito.

Fui sozinha e fico muito feliz que eu tenha ido. Mas realmente, confesso que companhia teria feito toda a diferença. Não só pelo fato de poder ficar mais no lugar ou se divertir, mas pelo fato de se sentir estar unido a alguém, lutando por um mesmo ideal; andar e disfrutar da Rua, na minha opinião, o melhor espaço público do mundo, mas que infelizmente não é frequentado por causa do suposto perigo que ela apresenta. Ou talvez porque o circulo social do qual faço parte não se sente pertencente àquele espaço e, por isso, tem que entrar em locais fechados. São oportunidades como essas que eu tenho vontade juntar a galera e ir.
Mas ninguém foi. Perderam. A atmosfera estava sensacional, com música, batucada, faixas, bandeiras, churrasco. Não dava vontade nenhuma de ir embora.
No triste caminho de volta pra casa, sou convidada para sair. Fico muito feliz por poder ver amigos que agora não vejo quase nunca. Mas depois de estar alí, solto, sentindo o ar e o ambiente libertador da rua, é broxante pensar que pra encontrar seus amigos, você vai ter que entrar no cinema, que fica dentro do shopping. Me sinto como se eu tivesse traido justo o que eu fui hoje defender. Sei que um não tem nada a ver com o outro, mas é o que eu sinto.

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